Raindrop: Pagan Poetry

Tag: 2003

Fábula do Arco-Íris

by on dez.12, 2003, under Textos

Azul. Uma luz azul corta a escuridão. O pequeno raio segue, intocado, sempre na direção que foi lançado. A ele não importa o que irá iluminar.

E em um ponto ele se encontra com um raio amarelo. “Para onde vais, raio azul?”. O raio amarelo pergunta.

“Aonde vou? Como se isso o interessasse! Vou sempre em frente, na direção em que fui lançado. Como, aliás, todo raio de luz!”. A resposta do azul foi seca. O amarelo então foi embora.
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O Velho

by on nov.19, 2003, under Textos

Teto branco. Cama cinza com colchão igualmente sem cor, como o teto e as paredes. A porta, negra, era o único contraste no quarto. A porta mesmo aberta não deixava entrar qualquer tipo de claridade, apenas um véu negro jazia do outro lado. Não haviam janelas. A única fonte de luz era um abajour sempre aceso em um dos cantos. Sobre o chão pois não havia qualquer outra mobília no quarto.

Neste quarto ele, deitado, desenhava com um velho lápis. No papel, o rosto de um velho, cheio de rugas e expressões faciais, tomava seus últimos contornos. Os olhos negros saltavam da página levando consigo toda a tristeza que estava igualmente estampada em seu rosto. Os profundos traços em sua testa mostravam que durante sua vida viveu intensamente todo tipo de emoção. Seus lábios, volumosos, cerrados tinham textura quebradiça, os cantos da sua boca com pequenas depressões de quem um dia riu muito. Depressões também abaixo de seus olhos, vales que um dia haviam sido regados abundantemente pelas lágrimas.

Uma pequena cicatriz no lado esquerdo do rosto, lembranças dos tempos em que batalhara contra a vida. Sim, como havia batalhado! No papel apenas esta era visível, por se tratar apenas do retrato de sua face, mas em seu corpo haviam sido talhadas marcas diversas, nunca havia desistido da luta. Não soubera naquela época por que lutava, apenas continuava pela esperança de um dia descobrir o motivo. Nunca fora orgulhoso de sua pátria, nunca fora fiel a pessoa alguma a ponto de continuar apenas por isso. Vivia sempre com a vã esperança de não se arrepender de tudo pelo que lutara.

Lutara até o último dia. Destruiu várias vidas, entristeceu inúmeras pessoas, partiu mais corações que poderia contar. Desenvolvera as mais covardes técnicas para atingir seus objetivos, tornara-se um mestre nas artes de camuflagem e espionagem. Os olhos pareciam até mesmo no papel ainda reterem esse poder, de ao mínimo contato lerem todas as coisas que as pessoas tentavam esconder.

E aprendera a confeccionar máscaras como ninguém. O rosto naquele papel podia assumir qualquer forma que desejasse. Conseguia ser a pessoa que quisesse, conseguia simular sentimentos e emoções tão bem que muitas vezes em sua vida enganara a si próprio. Muitas vezes inclusive havia se perdido no quarto de máscaras, sem saber qual era a face real e quais eram suas criações. Testara uma por uma, mas nunca ficara satisfeito. Todas eram boas para algumas situações, porém para outras eram totalmente incompatíveis. Boa parte de sua vida passara testando, uma a uma, essas máscaras.

As mãos trêmulas terminaram o desenho. Olhou com satisfação para o pedaço do papel, para os traços de diversos tons cinzas. E novamente seus lábios esboçaram um sorriso, desta vez real. Colou o papel na parede branca. Era a única coisa que faltava em seu quarto vazio.

Um espelho.

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Inocência

by on out.21, 2003, under Textos

Inocência branca e bela
Atrás de pedras espreita
Luz que sobressai na sombra
Delicados traços; pureza singela

Longos e finos dedos alvos
Enrubrecidos pelo sangue
Das tantas almas que caíram
Por sua beleza assumida

Seduz por sua fragilidade
Não vejo nela, porém,
Nenhum caminho, nenhuma
Forma de buscar prazer,
Minha deusa, minha felicidade.

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