Raindrop: Pagan Poetry

Chá

by on fev.24, 2010, under Textos

A cadeira velha reclamou ruidosamente sob o peso desagradável da pessoa que se sentou, o rangido sendo apenas percebido pelas paredes, que responderam com seu típico silêncio e indiferença. O homem colocou sobre a mesa, irmã gêmea da pequena cadeira, uma chávena ainda fumegante. Em seguida colocou ao lado uma xícara de porcelana empoeirada e fitou longamente os objetos, como se não soubesse qual seria o próximo passo a tomar. Então derramou o chá na xícara, e a levou até a boca.

Posicionada na varanda, a mesa era o lugar que mais gostava de ficar quando visitava a velha cabana. Olhar a lua, que se erguia alaranjada e enorme no céu, lhe trazia um conforto que não sabia explicar e o cheiro do mar trazido pelos ventos, que também balançavam uma velha cadeira de balanço do outro lado da varanda, enchia seu corpo de tranquilidade. Tranquilidade que acabaria em breve, assim que a lua deitasse novamente e o calor do novo dia fizesse com que os ventos se invertessem.

Mas agora podia contar nas estrelas e nos grãos de areia seus sonhos. Como as estrelas no céu pareciam todos tão próximos mas nunca os tocava por mais que extendesse o braço, e assim como os grãos de areia da praia iriam se misturar e jamais serem encontrados novamente. Tomou uma xícara de chá.

Olhou em volta, cada objeto trazendo de volta lembranças, algumas queridas, outras que jamais deveriam ter sido trazidas de volta à mente. Do lado de dentro, no fundo da cabana, estava um berço de madeira, já apodrecida, que um dia havia abrigado um pequeno corpo. Tomou outra xícara de chá.

Levantou-se e entrou na casa. Dentro do berço, livros com estórias a muito esquecidas, velhos e apagados demais para serem lidas novamente. Do lado, um pequeno triciclo, com a roda plástica da frente perfurada por cacos de vidro. Tremeu. Ajoelhou-se ao lado do brinquedo, tocando de leve um fragmento do vidro, e ainda pôde identificar uma mancha escura que sabia ser sangue, a muitos anos seco.

Pelo chão, saindo de onde estava e formando uma trilha até o quarto ao lado, pequenas manchas enegrecidas. Sabia que não devia entrar mais. A partir dali a lua já não iluminaria a casa e não haveriam janelas. Entrou, a porta fechando-se atrás dele.

O quarto era iluminado fracamente por um outro brinquedo, de plástico semitransparente, colocado em uma tomada que parecia fora do lugar, pendurada na parede de madeira. Havia um beliche, um tapete circular rasgado e uma barraca de camping com as barras de metal retorcidas. Em cima do tapete, um boneco sem a cabeça. Aproximou-se.

Quando tomou o boneco nas mãos o quarto à sua volta desapareceu, ficando envolto por uma nuvem escura. Ouviu alguém gritando com ele, mas não podia distinguir as palavras. O boneco derreteu-se e escorreu por entre seus dedos. Então estava caindo, a cabeça apontada para o tapete rasgado. Tentou gritar, mas sua boca não se abriu. Ao invés disso, o rasgo no tapete pareceu crescer, engolindo-o quando atingiu o chão.

Quando abriu os olhos viu o teto branco. Sentiu um cheiro que o fez se sentir mal. Cheiro de morte. Olhou para o lado e viu um corpo. Seu corpo. Seus olhos estavam abertos e assustados, a cabeça coberta por sangue. Sentiu que ia vomitar, e tudo começou a rodar. Virou-se bruscamente para o outro lado, caindo da maca em que estava.

Mas o chão em que caiu não era mais o do hospital. Estava em um gramado e várias crianças gritavam para que saísse dali pois estava atrapalhando o jogo delas. Levantou-se, tonto. Um dos garotos, que parecia mais velho, o ameaçava. Correu.

Correu pelo campo até o sol desaparecer. Em seu lugar subiu a lua, e por um momento pensou que havia retornado. Mas não era a lua que conhecia. Era uma lua vermelha, ameaçadora, que parecia reprovar com todas as forças ele estar ali. Sentiu um arrepio percorrer sua coluna. O ar havia mudado.

Paredes se ergueram à sua volta, formando um corredor estreito sem teto iluminado apenas pela luz rubra que vinha de cima. Espelhos nas paredes refletiam infinitamente sua imagem. Então ouviu um barulho vindo de trás dele. Sentiu um frio mórbido abraçar sua alma, congelando-o por dentro. Juntando todas suas forças, olhou para trás.

Sabia o que iria encontrar. Apenas uma coisa era capaz de despertar aquele terror em seu ser. Sabia antes de olhar. Não queria ver, mas seus olhos se recusaram a se fechar. Estava ali, e sabia que estava sorrindo mesmo não tendo uma boca. A Cruz. Rachada, brilhando escalarte. Refletida infinitas vezes, infinitas vezes atrás de sua própria imagem.

Desesperou-se e disparou-se pelo corredor. A lua, a verdadeira lua, em algum lugar chorava por ele, e pelo céu que havia se tornado vermelho. Pelo mundo vermelho. Ele, tropeçando, sentia a presença se aproximar cada vez mais. Sentia mãos invisíveis tocarem seu ombro e baforadas gélidas se lançarem contra sua nuca. O fim do corredor se aproximava, com um último espelho fechando o caminho. Fechou os olhos e se jogou contra o vidro. Sentiu o vidro se estilhaçar, cortando sua pele. Em seguida caiu. Abriu os olhos a tempo de ver o chão se aproximando.

Se preparou para a próxima parte do pesadelo, mas ao invés disso sentiu seu corpo bater no chão. Sentiu a dor percorrer cada um de seus membros, insuportável. E então a dor desapareceu.

Olhava o fundo da chávena, as folhas espalhadas caoticamente na porcelana. A lua já havia se posto. O chá, acabado. Suspirou.

O chá havia acabado.

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Aulas

by on fev.06, 2010, under Textos

Decidiu que iniciaria um curso de Ninjutsu.

Sempre fora fascinado por bombas de fumaça e já havia passado da hora de aprender a usa-las.

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Feliz 2010

by on jan.01, 2010, under Textos

Olhando os fogos do lado de fora da janela desejou felicidade para todos aqueles que acreditavam que essa época trazia consigo boas energias.

Só esperava que alguém se lembrasse de desejar que seu inferno astral terminasse logo.

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Igual

by on dez.28, 2009, under Textos

Ouviu os canários e bem-te-vis e depois olhou para as flores, vermelhas, azuis, brancas, pequenas e grandes.

E pensou: “Por que as pessoas são todas iguais?”

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Goodbye

by on dez.02, 2009, under Textos

Alone once again
I watch the sunset,
with tears in my eyes
And in the distance the car goes by.

The end of a day
Comes in the flight of an osprey.
To the stars in the sky
I say goodnight.

And the knife cutting through my heart
Leaves me devoid of emotion
No strength left to cry
No will left to try

No songs left to sing
No smiles, no strings.
With no emotions inside,
I say goodbye.

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A Longa Caminhada

by on nov.12, 2009, under Textos

E assim termina a longa caminhada
Depois de tantos anos, tanta história,
Tantos planos e idéias inacabadas,
Chegamos ao fim vazio da estrada

Podemos encher nossos pulmões de areia,
E fincar nossa bandeira no chão empoeirado
Orgulhosos de termos finalmente completado
A marcha sem precisar de ajuda alheia

Olhamos o sol se por atrás das dunas
E a escuridão rapidamente nos abraçar
Não lutamos – descansamos
E bebemos homenageando as sombras

Sonhos vendidos por poucas moedas
Corações trocados por efêmeros prazeres
Em algum lugar escolhemos o caminho errado
E assim termina a longa caminhada.

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Vaidade

by on out.29, 2009, under Textos

Vaidade
Da idade
Vã.

Idade das cidades
Das lojas, das modas
Dos carros e luzes.

Sombra da vaidade
espera o pincel quebrar
Frágil pincel que pinta o ego
Que atrás se esconde alma fácil, frágil.

Ah, a vaidade
Que aos poucos espalha o esmalte corrupto
E que aos nossos tolos olhos brilha
Amo-a!

Vaidade – vaidoso
Da idade – idoso
Vã – humanos.

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Madrugada

by on out.22, 2009, under Textos

Neste dia quero pela noite vagar
Chuva caindo sobre minha cabeça
Até onde as luzes se acabam
E no meio da escuridão há aquele bar

Quero entrar encharcado,
Cansado, perdido, desarrumado,
Pedir a bebida de sempre
Que nem sei qual é.

E então olhar para o lado,
Ver, pasmo, os cabelos alaranjados,
O sorriso, lábios vermelhos, olhar vagante
Com a mente viajante tocando a mesma canção.

Esta noite quero nos embriagar,
Com palavras, com gestos, com sensações,
Para sairmos em meio às sombras
Iluminando o fim da noite.

E quando chegarmos, a algum lugar,
Sem combinar trocarmos um beijo,
Sentir o doce da alma, o calor do desejo,
As curvas da pele, o pulsar do peito sob a mão.

Sem luzes, sem culpa, sem inibições,
Olhar o rosto adormecido, acariciá-lo suavemente,
Beijar suavemente a moça, pela última vez.

Pois quando o sol nascer já estaremos longe
E quero me lembrar com carinho,
Sentir que naquela madrugada fomos felizes,
Mas não quero esperar nada na manhã.

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Cores

by on out.08, 2009, under Textos

Naquele dia ficou sabendo que tinha uma amizade colorida.
E que era daltônico.

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Amanhã. Ou depois. Ou depois.

by on set.13, 2009, under Textos

Os olhos se abriram lentamente e a primeira visão do dia foi de seu braço esticado na cama, vazio. Levantou-se e olhou para os lençóis por um momento, como se procurando algo, até se lembrar que realmente havia dormido sozinho. Olhou para o calendário pendurado na parede e teve a impressão de já ter vivido aquele dia várias vezes, nunca vendo a folha mudar. Tomou seu banho mecanicamente como fazia todos os dias, pensando em quantas vezes ainda teria de fazê-lo durante sua vida.

(continue reading…)

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