Raindrop: Pagan Poetry

O Pássaro II

by on mar.13, 2010, under Textos

A noite havia iniciado sem lua nem estrelas no dia que o pássaro retornou à casa, o momento em que suas pequenas patas tocaram a madeira da janela aberta iluminado pelo clarão de um raio distante. O vento forte anunciava a aproximação da tempestade e a ave buscou abrigo na casa abandonada, que coincidentemente tinha sido no passado sua moradia. Estava vazia agora a não ser pelas plantas que haviam crescido ao longo das paredes e invadido o lugar pelas janelas, mensageiras da floresta que reclamava o local novamente.

O pássaro moveu a cabeça rapidamente de um lado para o outro, analisando o lugar, e pulou para cima de uma mesa velha, se encolhendo e ouvindo a chuva se aproximar do lado de fora. Logo a água, carregada pelo furioso vento, se espalhava por toda a floresta e chegava ao chão da construção passando por frestas entre as velhas telhas, apesar de não conseguir chegar até a ave. Se isso fosse possível o animal estaria sorrindo um sorriso amargo, pensando em quão irônico era estar novamente debaixo daquele teto, tão próximo da velha gaiola, agora vazia, que ainda estava pendurada na parede com a portinhola aberta. Não se lembrava quanto havia se passado, e isso não era realmente importante, mas se lembrava da tristeza que sentia ao ver o sol nascer, se pôr e nascer novamente com uma barra de metal cortando o disco iluminado ao meio.

Lembrava-se do dia em que sua dona havia aberto a portinhola e ele havia visto a floresta do alto. Lembrava-se da gratidão que havia sentido e das inúmeras vezes que havia voado até os limites da floresta e depois retornado para casa, sempre sendo recebido por um sorriso e um lugar confortável para passar os dias que ficava na casa. Tudo era perfeito: tinha sua liberdade, a floresta, o céu, a casa. Ia até onde as árvores encontravam as altas montanhas ou até o grande lago no lado oposto e, no fim doa, retornava. Até que, um dia, teve a impressão de ter visto algo no horizonte da grande massa azul de água, e percebeu que nunca havia considerado a possibilidade de haver algo além dos limites da floresta.

Um dia, pousado no galho mais alto da árvore mais próxima da água, se encheu de coragem e resolveu que iria descobrir o que havia do outro lado da água. Não sabia quanto teria que voar, mas tinha certeza que conseguiria. Pensando assim alçou vôo, com o sol sobre sua cabeça, subindo o mais alto que suas asas permitiram. Logo a floresta se tornava apenas um ponto diminuto no horizonte e o pássaro decidiu usar o sol para se guiar, pois logo não poderia mais circular e ver a direção tomando como base as copas das árvores, e logo tomou algumas estrelas que apareciam no céu como referência, pois a água já apagava a chama flamejante do astro. Era uma noite sem lua, mas as estrelas brilhavam forte no firmamento e ele sabia que enquanto estivessem naquela mesma posição ele estaria seguindo em frente.

Quando o véu negro começou a ser colorido ele avistou luzes ao longe, diferentes de qualquer estrela que conhecia. Estava cansado e o sol já estava novamente sobre sua cabeça quando finalmente pousou no topo de um prédio, maravilhado com as construções mais altas que qualquer árvore que já havia visto. Era como se um mundo completamente diferente existisse além daquele lago, e passou vários dias observando as pessoas, ouvindo o barulho, voando acima dos prédios. Depois seguiu ainda mais o sol poente, vendo as estradas, as fazendas, as florestas diferentes. Até que um dia decidiu voltar, e chegando em casa encontrou não um sorriso e sim foi recebido aos prantos e palavras tristes que falavam de preocupação, tristeza e saudade. E, sem entender, foi trancado novamente na gaiola, pois aquilo o manteria seguro.

Percebeu naquele dia que não pertencia à aquele lugar. Por mais que gostasse da moça que um dia o havia libertado, não era ali a seu lado que deveria ficar. Afinal ela era uma mulher, e ele, um pássaro. No dia seguinte, quando a gaiola foi aberta pela mulher para que colocasse água para o pássaro, ele se lançou pela portinhola e voou em direção às montanhas. Fez vários círculos enquanto subia, olhando triste para a mulher que gritava lá em baixo, mas não deixaria de seguir em frente. Ele gostava dela, mas seria impossível que os dois fossem felizes, pois ele possuia asas e ela não. Esperava que um dia ela entendesse isso, e não achasse que ele gostava menos dela por isso. Apenas seria impossível ser feliz preso ali, e sabia que ela também ficaria triste quando não o ouvisse mais cantar.

Quando amanheceu, a chuva já havia cessado. O pássaro olhou a casa vazia mais uma vez, e voou pela janela em direção ao céu.

Pois pássarios haviam nascido para voar.

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