Raindrop: Pagan Poetry

Badaladas

by on mar.01, 2010, under Textos

Acordou sobressaltado com a música nada familiar que soou em alguma parte da casa. Após um curto tempo de melodia conseguiu identificar badaladas que anunciavam as horas, um tom monótono que se repetiu oito vezes. Ainda sonolento, olhou seu próprio relógio, que descansava no criado-mudo, e viu que ainda marcava seis horas. Suspirou, puxou as cobertas e dormiu novamente.

Quando acordou e levantou-se, três horas depois, foi até a cozinha e se encontrou com sua avó, que preparava o café matinal. Ela era uma senhora baixa, de costas curvadas e cabelos grisalhos, sempre com um brilho nos olhos verdes e com uma enorme necessidade de conversar, agravada pelo fato de morar só e apenas receber visitas de familiares ocasionalmente, como naquele dia.

“Querido”, falou a velha sentindo que o homem havia entrado na cozinha, “ganhei esse relógio, mas apesar de estar marcando as horas corretamente ele parece sempre tocar como se estivesse adiantado. Poderia ver se consegue descobrir qual o problema?”

Ele sentiu, ou achou ter sentido, uma certa dor na voz da avó quando fez o pedido e não pôde deixar de imaginar qual seria o motivo daquilo. Talvez estivesse triste por ser um presente novo; talvez o anúncio prematuro das horas fizesse com que achasse que seu tempo de vida cada vez mais se aproximava do limite. Achava cruel que um velho se preocupasse ainda com o tempo, ao invés de simplesmente aproveitar o tempo que lhes restava para fazer quaisquer coisas que ainda tivessem vontade.

Colocou-se no lugar da velha: pensou em quantas coisas ainda queria fazer, quantos planos ainda tinha sem sequer iniciar, quantos lugares queria ver, quantas pessoas ainda queria conhecer. Mas tinha tudo planejado: agora trabalhava duro para que quando se aproximasse daquela idade crítica tivesse condições de realizar todos seus sonhos extravagantes. Dentro de alguns anos compraria seu próprio apartamento, depois de mais outros anos viajaria pelo mundo. Um dia talvez até se casasse. Mas com certeza iria ter um gato.

Tomou o relógio nas mãos e achou um botão atrás dele, que permitiu que sincronizasse o número de badaladas com a hora exibida pelo artefato. Ele não sabia quais eram os sonhos da avó; talvez ela já houvesse conseguido tudo, ou talvez desistido deles. Só sabia que havia vivido muito, e para ter chegado à idade que se encontrava sã com certeza havia realizado muito.

Ele um dia também realizaria muito, um dia. E tinha certeza que seria muito mais que sua avó, ou sua mãe, iriam realizar, pois havia aprendido a não se deixar levar pelos impulsos e sentimentos de um momento que poderiam levar seus planos à ruína. Todas as coisas aconteceriam no tempo certo, cada peça encaixada de acordo com o desenho que havia feito.

Nesse momento o relógio tocou, a pequena melodia seguida pelo número esperado de badaladas. Sorriu. No fim do dia, sua avó o agradeceu por ter consertado o problema, pouco antes de dormir. “Agora ela não precisa mais se preocupar em ter menos tempo”, pensou enquanto se recolhia. Fechou os olhos, imaginando que não gostaria de chegar à idade da avó sem ter completado todos seus planos. Dormiu.

Na manhã seguinte a manhã foi perturbada pelo som de seis badaladas acompanhadas de sirenes. Ao lado da ambulância, a velha chorava ao ver o neto que não acordara mais do sono, sem ter experimentado tudo que a vida lhe oferecia e somente se concentrado no futuro que nunca chegaria.

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2 comments for this entry:
  1. Paulo Vitor

    Diego, você escreve muito bem.
    Acompanharei os pŕoximos posts!
    abraço!

  2. Taiane

    Viver para o futuro. Se o futuro não chegar, o presente e o passado terão sido em vão.

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