Raindrop: Pagan Poetry

Amanhã. Ou depois. Ou depois.

by on set.13, 2009, under Textos

Os olhos se abriram lentamente e a primeira visão do dia foi de seu braço esticado na cama, vazio. Levantou-se e olhou para os lençóis por um momento, como se procurando algo, até se lembrar que realmente havia dormido sozinho. Olhou para o calendário pendurado na parede e teve a impressão de já ter vivido aquele dia várias vezes, nunca vendo a folha mudar. Tomou seu banho mecanicamente como fazia todos os dias, pensando em quantas vezes ainda teria de fazê-lo durante sua vida.

Após colocar a roupa pegou seu celular e como sempre não havia mensagens nem ligações perdidas. Procurou seu guarda-chuva, pois chovia forte, mas se lembrou que havia o esquecido no ônibus no dia anterior e resolveu enfrentar a chuva munido de um casaco com capuz. Havia coisas demais na vida que poderiam o matar, pensou, e a chuva não era nem de perto um dos mais fortes candidatos a isso. Na verdade ele gostava da chuva, gostava de como as gotas se espalhavam pela sua pele e pareciam o confortar.

Saiu, então, de cabeça erguida e capuz abaixado, os cabelos ainda molhados do banho ficando encharcados com a água e escorrendo pelo seu pescoço. Resolveu ir até seu trabalho pela calçada da praia apesar do caminho ser ligeiramente mais longo, pois eram raras as ocasiões que aquela parte da cidade estava vazia. O vento também agitava o mar e podia sentir o leve cheiro da água salgada.

Colocou entao, finalmente, o capuz, e ficou olhando as ondas quebrarem na areia enquanto as gotas se quebravam na copa das árvores entre a calçada e a praia. Sentiu que poderia ficar ali pelo resto do dia e pensou que provavelmente ficaria com pneumonia caso o fizesse. Porém seus pensamentos foram interrompidos quando notou uma pessoa sentada na areia, segurando os joelhos.

Curioso, atravessou o gramado e se aproximou cautelosamente. Viu os cabelos serem soprados pelo vento e reparou que era uma mulher. Estava imóvel, queixo apoiado nos joelhos, com o olhar muito além daquelas ondas. Seu primeiro impulso foi o de se afastar e continuar em seu caminho, e se preparou para fazê-lo.

“São bonitas, não são?”

A mulher, surpresa, olhou para o homem que rompera o véu do ruído branco da praia.

“Posso parecer louco, mas isso”, fez um gesto em direçao ao céu e ao mar, “me acalma. Tudo parece tão tranquilo quando chove”. Ele então voltou seu rosto para o da moça, que ainda o observava sem saber o que esperar. Notou como estava mais molhada que ele, sem um casaco para a proteger. Tirou seu casaco e o extendeu a ela, que não se moveu para aceitar.

Então sentou-se de forma semelhante, embolando o casaco no colo. Com certeza teria que lavar as roupas que usava, pois agora estariam completamente sujas de areia. Porém não falou mais nada, e ficou olhando as ondas se quebrarem. Olhou por tanto tempo que começou a pensar em várias coisas; no que tinha errado no passado, no que conseguira realizar, na sua situação presente, em como o futuro iria se desenrolar. Se perdeu tanto no meio de seus pensamentos que já não esperava quando a mulher respondeu.

“Sim… são bonitas. Mas é estranho como são bonitas no momento em que se quebram. Antes disso são apenas mais uma parte do oceano. Quando se quebram se tornam únicas.” Havia um misto de tristeza e admiração na voz. “E a chuva parece lavar tudo que é ruim. Gostaria que chovesse mais.”

Nesse momento a um raio cortou o céu e o um trovão ribombou, anunciando que logo os ventos e a chuva ficariam mais fortes. Chegara a hora de sair dali. O homem se levantou e bateu na calça, derrubando parte da areia. “Creio que é melhor ir agora. Você vai ficar?”

A mulher balançou negativamente a cabeça, e desta vez ele colocou o casaco em volta de seus ombros, cobrindo-a. Estendeu, então, a mão para ajuda-la a levantar. Os dois então caminharam em direção à calçada.

“Achei que fosse estar sozinho na praia” disse ele, casualmente.

“Você não é a única pessoa que gosta de chuva.”

Ambos sorriram e pararam ao chegar na calçada.

“Acho que é hora de voltarmos” ela disse, tirando o casaco emprestado, porém foi interrompida pelo homem.

“O casaco é seu. Se um dia realmente quiser me devolver há um cartão com meu telefone no bolso.”

Ele colocou o capuz sobre a cabeça da moça, sorriu e virou. Lembrou-se do telefone sem chamadas perdidas pela manhã, e teve alguma esperança que um dia ele tocasse.

Quem sabe amanhã. Ou depois. Ou depois.

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