Raindrop: Pagan Poetry

Agares

by on mar.03, 2009, under Textos

Seria um dia como qualquer outro: o sol havia brilhado sendo encoberto raras vezes por nuvens ralas, não havia feito muito calor, as pessoas haviam ido, em sua maioria, trabalhar pela manhã e tarde, com a noite dominada pela luz dos televisores nas salas de cada uma das residências. Para muitos aquele realmente foi um dia como qualquer outro, mas não em um apartamento igual a vários outros. Nesse indistinto apartamento Agares, agora com um ano e três meses, havia proferido sua primeira palavra e o lar festejava.

“Amo”

Foi apenas uma singela palavra e seus pais, apesar de felizes, não deram tanta importância à palavra quanto ao fato de ter sido dita. Mas o vocábulo proferido instintivamente iria ter um peso maior que qualquer outra coisa na vida da criança. Mais velho ele provavelmente pensaria que talvez algo maior que o instinto houvesse o levado a dizer aquilo, se um dia houvesse sabido qual foi sua primeira tentativa de interação sonora articulada com o mundo.

E ele amou cedo. Quando criança amava seus pais, amava seus amigos, amava o sol brilhando no céu azul e a água fria que caía das nuvens cinzas, formando poças que pulava por cima. Amava os desenhos que passavam pela manhã na TV, amava a professora que encontrava toda tarde e amava esparramar tintas coloridas nos papéis durante a tarde. Amava o tempo que passava com os pais durante a noite, amava quando não estavam cansados e jogavam com ele durante a noite. Quando não podiam jogar, amava simplesmente ficar deitado em seus colos enquanto assistiam seus próprios programas na televisão.

Era tudo bonito e perfeito, pois se algo que não amava não estivesse ali havia sempre milhares de outras coisas.

Um dia qualquer, como aquele em que havia dito sua primeira palavra, ele foi à escola e passou a tarde na companhia de seus amigos brincando, pintando, modelando e aprendendo com todo o processo. Fez algo um pouco diferente aquele dia: estava com vontade de ir ao banheiro na hora do intervalo, e assim o fez. Quando foi ao refeitório, lancheira na mão com o lanche carinhosamente preparado por sua mãe, encontrou todos os bancos da mesa em que costumava sentar ocupados.

“Bem, vou me sentar com meus outros amigos” – pensou. E sentou-se em uma outra mesa, conversando animadamente como sempre. Não estava com seus amigos de costume, mas todos ali o tratavam tão bem quanto ele os tratava e isso o deixava tão feliz quanto estaria se estivesse na mesa em que costumava comer.

O refeitório era barulhento: uma mesa, com seis crianças, era barulhenta e havia ali ao menos cinco delas. Porém houve um daqueles raros instantes em que um véu de silêncio encobre tudo. E apenas uma voz ecoa, solitária e clara, antes de ser novamente engolida pelos rumores. E aquele silêncio mudou sua vida. Ou ao menos iniciou as mudanças.

“Ele podia se sentar lá sempre, ele é muito cha-“

Não ouviu mais, mas não foi mais necessário. Lágrimas vieram aos seus olhos, tornando a maçã vermelha que segurava em uma grande massa disforme. Naquele momento não tinha mais vontade de comer, de beber, de conversar, de estar ali. Levantou-se e saiu correndo, sendo notado por poucos enquanto fazia isso. Não olhou para trás para ver se os amigos – ou ao menos quem sempre considerou como amigos – estavam bem ou se iriam ficar preocupados com ele. Não iriam.

Correu até a grade atrás do parque de areia da escola e tentou subir por ela. Não sabia o que estava fazendo, não sabia para onde queria ir, mas sabia que não queria estar ali. Desde o momento em que havia nascido ele havia sido querido. E também tratava todos com o mesmo amor que recebia, ou julgava receber. Mas ali, pela primeira vez em seus poucos anos de vida, ele parecia não ser bem vindo, e não entendia isso. Suas mãos perderam a força quando estava a um metro e meio do chão. Caiu na areia. Ficou ali até o fim do intervalo, quando a professora contou os alunos e percebeu que faltava um deles. Mas ela nem sabia quem era, a princípio.

No dia seguinte não foi à escola. Não amava mais aquele lugar. Era estranho não amar algo, mas não amava. Era manhã e não amava. Tarde. Não amava. Noite. Não amava. Dormiu.

Logo os dias se tornaram novamentes dias quaisquer, em que repetia o de sempre, mesmo não amando sempre. Algumas vezes já não sentia vontade de ir à escola, mas em geral gostava daquilo tudo e fazia questão de poder estar presente. Sabia que, ainda que nem todos o amassem, a maioria ainda gostava ou estava aberta a gostar dele. E ele logo voltou a amar aqueles que participavam de sua vida, que o procuravam para conversar, jogar bola e apostar corrida nos intervalos do recreio. Anos se passaram assim.

Até o ano em que o amar assumiu uma forma ligeiramente diferente do normal. Um amar mais forte, uma vontade maior ainda de estar com uma certa pessoa. E disse que amava uma certa garota, que disse que também o amava. As duas crianças realmente pareciam se amar, andando de mãos dadas nos intervalos. Agares sempre comprava um doce na cantina com os trocados que economizava pedindo um lanche mais barato para dar para a garota, pois amava o sorriso dela quando ficava satisfeita.

Um dia ele não comprou o doce pois havia perdido o dinheiro do lanche, e ela ficou triste. Uma dor enorme passou por seu coração, e ele prometeu a si mesmo nunca mais deixar aquilo acontecer de novo. No dia seguinte sua mãe não lhe deu o dinheiro do lanche.

“Porquê eu ficaria com você se você não vai me dar doces?”

Doces. Ele não entendeu a princípio, pois ela estava com ele por também amá-lo. Doces. Ou talvez não houvesse sido exatamente assim. Doces. Talvez ela nunca houvesse o amado. Nunca mais comprou doces para ninguém.

Vários anos se passaram, com dias iguais a quaisquer outros se repetindo. Aprendeu a dizer que amava com certo cuidado, certificando-se que as pessoas a quem dizia isso não estavam com ele pelos doces – afinal já não os dava mais. Viu o amor que tinha por várias coisas morrer aos poucos: entendeu que as gotas geladas o deixavam gripado, teve uma intoxicação alimentar com seu prato preferido, viu que as pessoas não faziam o mesmo esforço para gostar dele como ele fazia para gostar delas. Aprendeu a não se importar, pois não podia não amar e se afastar. Não podia escolher estar envolto na luz do amor e deixar esquecido no escuro tudo aquilo que não mais amava, pois passaram a ser muitas coisas. Aprendeu que o cinza é, tristemente, necessário.

Um dia novamente a luz do amor brilhou forte, mais forte que jamais havia brilhado. Novamente por uma garota, que não queria doces, que parecia o amar pelo que era e que parecia capaz de fazer suas sombras desaparecerem por completo. Os dois brilhavam tão forte que ele se sentia novamente uma criança, tendo voltado aos tempos em que todos o amavam e tudo o que não amava podia ser deixado para trás.

“Amo”

Os dois pronunciavam esta única palavra simultaneamente, como se fosse sua primeira palavra novamente. Amavam a água fria que caía das nuvens cinzas, amavam passar os dias na cama resfriados juntos, amavam perder os dias vendo desenhos, amavam gastar pouco dinheiro com tintas baratas que eram jogadas sem compromisso sobre folhas de papel de todas as cores. Amavam colar em suas paredes os desenhos do outro e olhar aquela bagunça como a mais linda pintura que existia. Amavam fazer doces um para o outro

Mas o mundo não estava preparado para aquele amor. O mundo era cinza e não podia tolerar aquela mancha branca. O mundo era paciente e sabia que em algum momento teriam que colocar a mão para fora da esfera iluminada. E o mundo estaria esperando. O mundo, acima de tudo, tinha forças para puxar mãos. Agares errou ao achar que podia estender a luz. Quando o brilho diminuiu em um ponto surgiram sombras.

O fim não veio como uma reclamação devido aos doces terem se acabado. O fim veio com a inveja do mundo cinza, que achava que aquele borrão claro era uma aberração e decidiu que um era como uma droga para o outro. E talvez fossem, mas morreriam felizes se continuassem a aumentar a dose como faziam. Pessoas lutaram para afastá-los e o próprio tempo pareceu jogar as cartas que tinha para mantê-los longe. Eles lutavam, mas as sombras cada vez mais se espalharam.

Amizades são como flores, morrem se não forem regadas. E seu amor por ela era como uma epidendrum nocturnum, exigente e apenas florescendo brevemente. Agares não morava perto de sua orquídea e deixou de rega-la. Ele culpou unicamente a si mesmo quando ela morreu. Aprendeu que quanto maior o amor maior era a dor que se seguia. Aprendeu a amar o mínimo necessário para que continuasse chamando aquilo de amor.

Vários anos se passaram, e o homem Agares mais uma vez, mais de uma vez, disse que amava. Com todas as reservas, com todos os cuidados, com toda a censura, amava. Mas era um amor tão escondido dentro de si mesmo que já não era suficiente para quem estava do lado de fora chamar de “amor”. Para ele era importante – os restos de luz que ainda tinha – mas se tornou desnecessário e indesejado. Não queriam flores murchas. Ele entendia. Provavelmente se sentiria da mesma forma. Mas havia aprendido que era ruim ser de outra forma.

Abriu as mãos e as pétalas mortas se foram.

Aprendeu a gostar sem amar. A dizer “amo” sem amar. Aprendeu que não queria mais aprender. E, se soubesse qual havia sido sua primeira palavra, provavelmente desejaria ter nascido mudo.

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