Raindrop: Pagan Poetry

Textos

A Moça que Dormia

by on jan.21, 2009, under Textos

Acordou e olhou, feliz, o delicado e sereno rosto que descansava no travesseiro ao lado, embalado por sonhos tranqüilos. Levantou-se então, com um sorriso, e foi até a cozinha preparar o seu café da manhã e o da moça, que não veria acordar mas desejava ao menos deixar algo simbólico como agrado. Fazia isso todos os dias e acordar todas as manhãs olhando aquela face era toda a recompensa que poderia desejar.
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Frio

by on jan.20, 2009, under Textos

Frio que cresce, sufoca, aperta,
O, frágil, pulso incerto, apressa,
O grito, engolido, medo enxerta,
Profundo desespero engessa
Na carne não mais inanimada do peito.

Palavras estraçalham as flores e panos,
Desnudando a estátua, mostrando o humano.

Puxo as cortinas, tranco as portas
Mas tudo inunda, invade e pilha
Derrotas, lágrimas vivas, almas mortas
Apagando luzes, tornando tudo em ilha

Silêncio engole doce e vomita ácido
Até que desce a escuridão e tudo consome.

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Correntes

by on jan.20, 2009, under Textos

Ouviu a corrente se arrastar. Foi um ruído quase imperceptível, e provavelmente já estava o acompanhando a algum tempo, sem que seus ouvidos percebessem, sem que sua pele notasse o toque gelado do metal, sem que sua mente reagisse. Virou-se e pela primeira vez pode ver claramente que o prendiam. Ou pelo menos julgou ser a primeira vez.

Como haviam o prendido por tanto tempo? Como estava sendo sufocado sem oferecer o mínimo de resistência? Como havia deixado que aquelas amarras o abraçassem e lhe acompanhassem até tão longe?
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A Espera

by on jan.20, 2009, under Textos

Naquela noite, soturno, voltou os olhos à lua que deveria estar sobre as nuvens. Não conseguia enxergar seu brilho, mas seu coração tinha a certeza que estava lá, em algum lugar, olhando para ele e sorrindo carinhosamente, esperando a tempestade que começara mais cedo passar para acariciá-lo com seus braços prateados.

E todas as noites ele olhava para o céu na esperança da incômoda umidade ter se dissipado, e todas as noites retornava apenas com as lágrimas lavadas pela água que, incessante, vinha ao encontro de seu rosto. Mas sabia que a lua estaria lá, e vivia cada dia com a certeza que se revelaria no próximo.

Um dia. Uma semana. Um mês.
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Sol

by on jan.20, 2009, under Textos

A ostra abriu sua concha por um segundo, e naquele instante viu o brilho da luz do sol.

No próximo havia apenas a garra do caranguejo.

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Inauguração

by on jan.19, 2009, under Textos

Agradeço a tu que, triste, desamparada, rejeitada,
Não me tocaste, olhaste, percebeste.
A tu que em ingênua e carente inocência,
Estendeste a mão que trouxe este espírito ao mundo.

Feliz seja por seguir adiante e me abandonar,
Intocado, puro, dormindo profundamente,
Sem minha alma alma macular e sem tuas mãos sujar.
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Pecados

by on nov.12, 2008, under Textos

Ainda nevava levemente, e o vento gelado corria pela imensa área que um dia fora coberta por exuberante vegetação. Mas o ar agora não encontrava qualquer resistência ao movimento: os poucos troncos quebrados que restaram jaziam sob a espessa camada de água cristalizada. O manto branco escondia o retrato da destruição que tomara lugar naquele vale à muito tempo atrás. Desde então o relógio havia se esquecido de marcar as horas. E o inverno se esquecera de ceder lugar à primavera.

Porém a antiga catedral ainda ocupava, como fora desde o início dos tempos, o mesmo lugar, suas duas torres saindo da neve como lanças negras desafiando a natureza. A única resposta que esta lhe dava era lançar lufadas gélidas adentro da janela, uma boca de vidro afiado como presas mas que jamais cortaram carne alguma: nenhum animal sobrevivera ao longo período glacial para se aventurar ali. As noites e dias passavam silenciosamente, exceto por alguns raros uivos dos lobos que habitavam as montanhas ao norte.
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Dia Chuvoso

by on jul.29, 2006, under Textos

Ela estava sentada com seu bloco de folhas em seu colo, e um lápis na mão. Porém o lápis estava estático como seus olhos, fixos em algum ponto distante além das nuvens que começavam a cobrir o céu. Um vento começava a soprar, criando ondas na grama ao redor da garota, anunciando que logo uma tempestade iria cair sobre a terra.

Um pingo caiu sobre o bloco que a garota segurava, molhando o grafite e ameaçando borrar o desenho incompleto. Outra gota. Mas o chão continuava seco. Lágrimas escorriam pelo rosto branco, contornando as feições, molhando os lábios e então cortando o ar até deitarem-se na folha de papel. Ela não tinha para onde ir. Para ela não fazia diferença se chovesse ou não. Ninguém se importaria se ela se molhasse. Nem ela.
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Partida

by on out.10, 2004, under Textos

Não tenho nada
Não sou nada
Não tenho nada a perder
O que me mantém aqui ainda?

Esperanças?
Sonhos?
Responsibilidades?

Minhas esperanças só me traem
Sempre acordo dos sonhos
E sou irresponsável.

“O que o mantém aqui?”
Nada
“Por quê não vai embora?”
Eu vou
“Quando?”
Logo. Assim que parar minha dor no coração.

Logo…

Um raio cai lá fora e um trovão balança os vidros.

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Fábula do Arco-Íris

by on dez.12, 2003, under Textos

Azul. Uma luz azul corta a escuridão. O pequeno raio segue, intocado, sempre na direção que foi lançado. A ele não importa o que irá iluminar.

E em um ponto ele se encontra com um raio amarelo. “Para onde vais, raio azul?”. O raio amarelo pergunta.

“Aonde vou? Como se isso o interessasse! Vou sempre em frente, na direção em que fui lançado. Como, aliás, todo raio de luz!”. A resposta do azul foi seca. O amarelo então foi embora.
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