Raindrop: Pagan Poetry

Textos

Quero

by on abr.25, 2013, under Textos

O dormir não vem pelo querer,
Querer falar, querer entender;
Querer encontrar o sonho abandonado,
Querer ouvir, querer servir.

Quero esquecer a promessa
Que me fiz, de nunca mais querer,
Pois querer traz esperanças
E com ela inevitável dor.

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Chuva

by on out.21, 2011, under Textos

A superfície escura do lago era perturbada pelas gotas que, incessantemente, caíam emudecidas pelo ruído das nuvens que gritavam com vozes graves disputando a madrugada. Folhas dançavam pelo ar, desgarradas dos galhos aos quais tentaram em vão se segurar, adiando serem cobertas pela terra molhada pela chuva.

Debaixo de uma árvore, sempre que o céu se iluminava, via-se um vulto diferente dos grandes e velhos troncos, encolhido contra a madeira que oferecia o mais próximo de abrigo contra as partículas gélidas de água que viajavam impulsionadas pelo vento. A garota, sentada com os braços em volta dos joelhos, olhava para a escuridão além do lago sem realmente focar sua atenção em nada.

Sabia que não estava sozinha e provavelmente teria visto o homem que se aproximara lentamente se tivesse olhado em sua volta. Entre uma trovoada e outra, no entanto, havia escutado seus passos.

“Não quero vê-lo”, disse ao sentir que o homem estava próximo. De fato ele estava ligeiramente atrás dela e abriu um guarda-chuva, estendendo sobre a moça. Não disse nada, e apenas segurou o objeto em um gesto que o vento tornou sem razão – a chuva, propelida pelo vento, apenas passava de lado pela frágil proteção.

“Você não precisa olhar para trás”. As palavras saíram da boca do homem quase inaudíveis em meio à tempestade. Tentou aproximar mais o guarda-chuva da moça, mas sentiu uma mão segurar a sua. Sem olhar para trás, ela impedia que se aproximasse mais. Suspirou e deixou o guarda-chuva no chão ao lado dela. Em seguida, aproximou novamente sua mão dos ombros da mulher.

“Não irei”. Ao falar isso ela novamente segurou a mão dele, impedindo que se aproximasse mais e sem jamais se virar. Sentiu mais determinação na ação do homem, e apertou com força a mão indesejada, que após hesitar por um momento se afastou. Ouviu passos se afastarem pisando na terra molhada e, relutante, virou-se o suficiente para pegar o guarda-chuva e notou que havia mais algo além dele.

Pegou um objeto pequeno, e olhou-o cuidadosamente. Uma pequena rosa, que havia sido esmagada quando apertou a mão do homem. Nesse momento virou-se para trás, vendo de relance os contornos dele, já distante, quando um raio cortou o céu. Fez menção de levantar-se, mas quando houve um outro clarão já não o viu mais.

E no dia seguinte a chuva havia lavado suas pegadas.

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Gotas

by on out.16, 2011, under Textos

Chovia, e andar sentindo os pingos no rosto o deixava bem. Não parecia estar chorando, e as gotas lhe faziam companhia.

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Sentidos

by on dez.25, 2010, under Textos

Passos.

O silêncio absoluto foi quebrado. O ruído distante a princípio se aproximava cada vez mais, assustando os espíritos que estavam ali repousando a eternidades e fazendo com que, confusos, esbarrassem seus corpos imateriais uns nos outros.

Luz.

A escuridão absoluta foi quebrada. Mais chocante que o estalo dos velhos dijuntores foram os holofotes serem impalados pela corrente elétrica e gritarem com todas suas forças a claridade que estava engasgada em seus corpos vítreos.

Dor.

As sensações haviam se tornado tão aliens que fizeram com que o corpo inteiro estremessesse. Sentir havia se tornado tão alien que não conseguia distinguir o que era seu corpo e o que era a cela escura e silenciosa. E naquele momento sentiu tudo, dento de si mesmo, sensações vindas de uma agulha espetada por fora.

Com um grito as grades se quebraram; com um grito lembrou-se que tinha voz; com um grito percebeu que ainda existia.

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Vida

by on out.04, 2010, under Textos

Minha vida é um livro,
Sem várias páginas, arrancadas, amassadas
Jogadas em alguma calçada no passado
Ou esquecidas em algum beco escuro

É uma coletânea de palavras inacabadas,
De sonhos não vividos,
De fatos jogados.

Como uma visita a uma livraria abandonada,
Guarda várias mentiras, várias verdades,
Majestosa em suas perguntas e respostas,
Trazendo poucas esperanças sem a coleção catalogada.

Minha vida é aqui dentro,
Onde só eu alcanço,
Onde só eu toco,
Onde só eu danço.

Onde só eu me encontro.

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O Velho

by on set.24, 2010, under Textos

Teto branco. Cama cinza com colchão igualmente sem cor, como o teto e as paredes. A porta, negra, era o único contraste no quarto. A porta mesmo aberta não deixava entrar qualquer tipo de claridade, apenas um véu negro jazia do outro lado. Não haviam janelas. A única fonte de luz era um abajour sempre aceso em um dos cantos. Sobre o chão pois não havia qualquer outra mobília no quarto.

Neste quarto ele, deitado, desenhava com um velho lápis. No papel, o rosto de um velho, cheio de rugas e expressões faciais, tomava seus últimos contornos. Os olhos negros saltavam da página levando consigo toda a tristeza que estava igualmente estampada em seu rosto.  Os profundos traços em sua testa mostravam que durante sua vida viveu intensamente todo tipo de emoção.  Seus lábios, volumosos, cerrados tinham textura quebradiça, os cantos da sua boca com pequenas depressões de quem um dia riu muito. Depressões também abaixo de seus olhos, vales que um dia haviam sido regados abundantemente pelas lágrimas.

Uma pequena cicatriz no lado esquerdo do rosto, lembranças dos tempos em que batalhara contra a vida. Sim, como havia batalhado! No papel apenas esta era visível, por se tratar apenas do retrato de sua face, mas em seu corpo haviam sido talhadas marcas diversas, nunca havia desistido da luta. Não soubera naquela época por que lutava, apenas continuava pela esperança de um dia descobrir o motivo. Nunca fora orgulhoso de sua pátria, nunca fora fiel a pessoa alguma a ponto de continuar apenas por isso. Vivia sempre com a vã esperança de não se arrepender de tudo pelo que lutara.

Lutara até o último dia. Destruiu várias vidas, entristeceu inúmeras pessoas, partiu mais corações que poderia contar. Desenvolvera as mais covardes técnicas para atingir seus objetivos, tornara-se um mestre nas artes de camuflagem e espionagem. Os olhos pareciam até mesmo no papel ainda reterem esse poder, de ao mínimo contato lerem todas as coisas que as pessoas tentavam esconder.

E aprendera a confeccionar máscaras como ninguém. O rosto naquele papel podia assumir qualquer forma que desejasse. Conseguia ser a pessoa que quisesse, conseguia simular sentimentos e emoções tão bem que muitas vezes em sua vida enganara a si próprio. Muitas vezes inclusive havia se perdido no quarto de máscaras, sem saber qual era a face real e quais eram suas criações. Testara uma por uma, mas nunca ficara satisfeito. Todas eram boas para algumas situações, porém para outras eram totalmente incompatíveis. Boa parte de sua vida passara testando, uma a uma, essas máscaras.

As mãos trêmulas terminaram o desenho. Olhou com satisfação para o pedaço do papel, para os traços de diversos tons cinzas. E novamente seus lábios esboçaram um sorriso, desta vez real. Colou o papel na parede branca. Era a única coisa que faltava em seu quarto vazio.

Um espelho.

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Blank

by on ago.22, 2010, under Textos

This is just an empty shell,
Where all is looks, sweet lies
Eye candy, dandy smell
Neon boards, flashing lights

This is a blank book about life
Devoid of words,  empty of meaning,
Sporting a nice leather cover,
Packed in a paper covered gift box

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O Pássaro II

by on mar.13, 2010, under Textos

A noite havia iniciado sem lua nem estrelas no dia que o pássaro retornou à casa, o momento em que suas pequenas patas tocaram a madeira da janela aberta iluminado pelo clarão de um raio distante. O vento forte anunciava a aproximação da tempestade e a ave buscou abrigo na casa abandonada, que coincidentemente tinha sido no passado sua moradia. Estava vazia agora a não ser pelas plantas que haviam crescido ao longo das paredes e invadido o lugar pelas janelas, mensageiras da floresta que reclamava o local novamente.

O pássaro moveu a cabeça rapidamente de um lado para o outro, analisando o lugar, e pulou para cima de uma mesa velha, se encolhendo e ouvindo a chuva se aproximar do lado de fora. Logo a água, carregada pelo furioso vento, se espalhava por toda a floresta e chegava ao chão da construção passando por frestas entre as velhas telhas, apesar de não conseguir chegar até a ave. Se isso fosse possível o animal estaria sorrindo um sorriso amargo, pensando em quão irônico era estar novamente debaixo daquele teto, tão próximo da velha gaiola, agora vazia, que ainda estava pendurada na parede com a portinhola aberta. Não se lembrava quanto havia se passado, e isso não era realmente importante, mas se lembrava da tristeza que sentia ao ver o sol nascer, se pôr e nascer novamente com uma barra de metal cortando o disco iluminado ao meio.

Lembrava-se do dia em que sua dona havia aberto a portinhola e ele havia visto a floresta do alto. Lembrava-se da gratidão que havia sentido e das inúmeras vezes que havia voado até os limites da floresta e depois retornado para casa, sempre sendo recebido por um sorriso e um lugar confortável para passar os dias que ficava na casa. Tudo era perfeito: tinha sua liberdade, a floresta, o céu, a casa. Ia até onde as árvores encontravam as altas montanhas ou até o grande lago no lado oposto e, no fim doa, retornava. Até que, um dia, teve a impressão de ter visto algo no horizonte da grande massa azul de água, e percebeu que nunca havia considerado a possibilidade de haver algo além dos limites da floresta.

Um dia, pousado no galho mais alto da árvore mais próxima da água, se encheu de coragem e resolveu que iria descobrir o que havia do outro lado da água. Não sabia quanto teria que voar, mas tinha certeza que conseguiria. Pensando assim alçou vôo, com o sol sobre sua cabeça, subindo o mais alto que suas asas permitiram. Logo a floresta se tornava apenas um ponto diminuto no horizonte e o pássaro decidiu usar o sol para se guiar, pois logo não poderia mais circular e ver a direção tomando como base as copas das árvores, e logo tomou algumas estrelas que apareciam no céu como referência, pois a água já apagava a chama flamejante do astro. Era uma noite sem lua, mas as estrelas brilhavam forte no firmamento e ele sabia que enquanto estivessem naquela mesma posição ele estaria seguindo em frente.

Quando o véu negro começou a ser colorido ele avistou luzes ao longe, diferentes de qualquer estrela que conhecia. Estava cansado e o sol já estava novamente sobre sua cabeça quando finalmente pousou no topo de um prédio, maravilhado com as construções mais altas que qualquer árvore que já havia visto. Era como se um mundo completamente diferente existisse além daquele lago, e passou vários dias observando as pessoas, ouvindo o barulho, voando acima dos prédios. Depois seguiu ainda mais o sol poente, vendo as estradas, as fazendas, as florestas diferentes. Até que um dia decidiu voltar, e chegando em casa encontrou não um sorriso e sim foi recebido aos prantos e palavras tristes que falavam de preocupação, tristeza e saudade. E, sem entender, foi trancado novamente na gaiola, pois aquilo o manteria seguro.

Percebeu naquele dia que não pertencia à aquele lugar. Por mais que gostasse da moça que um dia o havia libertado, não era ali a seu lado que deveria ficar. Afinal ela era uma mulher, e ele, um pássaro. No dia seguinte, quando a gaiola foi aberta pela mulher para que colocasse água para o pássaro, ele se lançou pela portinhola e voou em direção às montanhas. Fez vários círculos enquanto subia, olhando triste para a mulher que gritava lá em baixo, mas não deixaria de seguir em frente. Ele gostava dela, mas seria impossível que os dois fossem felizes, pois ele possuia asas e ela não. Esperava que um dia ela entendesse isso, e não achasse que ele gostava menos dela por isso. Apenas seria impossível ser feliz preso ali, e sabia que ela também ficaria triste quando não o ouvisse mais cantar.

Quando amanheceu, a chuva já havia cessado. O pássaro olhou a casa vazia mais uma vez, e voou pela janela em direção ao céu.

Pois pássarios haviam nascido para voar.

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Badaladas

by on mar.01, 2010, under Textos

Acordou sobressaltado com a música nada familiar que soou em alguma parte da casa. Após um curto tempo de melodia conseguiu identificar badaladas que anunciavam as horas, um tom monótono que se repetiu oito vezes. Ainda sonolento, olhou seu próprio relógio, que descansava no criado-mudo, e viu que ainda marcava seis horas. Suspirou, puxou as cobertas e dormiu novamente.

Quando acordou e levantou-se, três horas depois, foi até a cozinha e se encontrou com sua avó, que preparava o café matinal. Ela era uma senhora baixa, de costas curvadas e cabelos grisalhos, sempre com um brilho nos olhos verdes e com uma enorme necessidade de conversar, agravada pelo fato de morar só e apenas receber visitas de familiares ocasionalmente, como naquele dia.

“Querido”, falou a velha sentindo que o homem havia entrado na cozinha, “ganhei esse relógio, mas apesar de estar marcando as horas corretamente ele parece sempre tocar como se estivesse adiantado. Poderia ver se consegue descobrir qual o problema?”

Ele sentiu, ou achou ter sentido, uma certa dor na voz da avó quando fez o pedido e não pôde deixar de imaginar qual seria o motivo daquilo. Talvez estivesse triste por ser um presente novo; talvez o anúncio prematuro das horas fizesse com que achasse que seu tempo de vida cada vez mais se aproximava do limite. Achava cruel que um velho se preocupasse ainda com o tempo, ao invés de simplesmente aproveitar o tempo que lhes restava para fazer quaisquer coisas que ainda tivessem vontade.

Colocou-se no lugar da velha: pensou em quantas coisas ainda queria fazer, quantos planos ainda tinha sem sequer iniciar, quantos lugares queria ver, quantas pessoas ainda queria conhecer. Mas tinha tudo planejado: agora trabalhava duro para que quando se aproximasse daquela idade crítica tivesse condições de realizar todos seus sonhos extravagantes. Dentro de alguns anos compraria seu próprio apartamento, depois de mais outros anos viajaria pelo mundo. Um dia talvez até se casasse. Mas com certeza iria ter um gato.

Tomou o relógio nas mãos e achou um botão atrás dele, que permitiu que sincronizasse o número de badaladas com a hora exibida pelo artefato. Ele não sabia quais eram os sonhos da avó; talvez ela já houvesse conseguido tudo, ou talvez desistido deles. Só sabia que havia vivido muito, e para ter chegado à idade que se encontrava sã com certeza havia realizado muito.

Ele um dia também realizaria muito, um dia. E tinha certeza que seria muito mais que sua avó, ou sua mãe, iriam realizar, pois havia aprendido a não se deixar levar pelos impulsos e sentimentos de um momento que poderiam levar seus planos à ruína. Todas as coisas aconteceriam no tempo certo, cada peça encaixada de acordo com o desenho que havia feito.

Nesse momento o relógio tocou, a pequena melodia seguida pelo número esperado de badaladas. Sorriu. No fim do dia, sua avó o agradeceu por ter consertado o problema, pouco antes de dormir. “Agora ela não precisa mais se preocupar em ter menos tempo”, pensou enquanto se recolhia. Fechou os olhos, imaginando que não gostaria de chegar à idade da avó sem ter completado todos seus planos. Dormiu.

Na manhã seguinte a manhã foi perturbada pelo som de seis badaladas acompanhadas de sirenes. Ao lado da ambulância, a velha chorava ao ver o neto que não acordara mais do sono, sem ter experimentado tudo que a vida lhe oferecia e somente se concentrado no futuro que nunca chegaria.

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Chá

by on fev.24, 2010, under Textos

A cadeira velha reclamou ruidosamente sob o peso desagradável da pessoa que se sentou, o rangido sendo apenas percebido pelas paredes, que responderam com seu típico silêncio e indiferença. O homem colocou sobre a mesa, irmã gêmea da pequena cadeira, uma chávena ainda fumegante. Em seguida colocou ao lado uma xícara de porcelana empoeirada e fitou longamente os objetos, como se não soubesse qual seria o próximo passo a tomar. Então derramou o chá na xícara, e a levou até a boca.

Posicionada na varanda, a mesa era o lugar que mais gostava de ficar quando visitava a velha cabana. Olhar a lua, que se erguia alaranjada e enorme no céu, lhe trazia um conforto que não sabia explicar e o cheiro do mar trazido pelos ventos, que também balançavam uma velha cadeira de balanço do outro lado da varanda, enchia seu corpo de tranquilidade. Tranquilidade que acabaria em breve, assim que a lua deitasse novamente e o calor do novo dia fizesse com que os ventos se invertessem.

Mas agora podia contar nas estrelas e nos grãos de areia seus sonhos. Como as estrelas no céu pareciam todos tão próximos mas nunca os tocava por mais que extendesse o braço, e assim como os grãos de areia da praia iriam se misturar e jamais serem encontrados novamente. Tomou uma xícara de chá.

Olhou em volta, cada objeto trazendo de volta lembranças, algumas queridas, outras que jamais deveriam ter sido trazidas de volta à mente. Do lado de dentro, no fundo da cabana, estava um berço de madeira, já apodrecida, que um dia havia abrigado um pequeno corpo. Tomou outra xícara de chá.

Levantou-se e entrou na casa. Dentro do berço, livros com estórias a muito esquecidas, velhos e apagados demais para serem lidas novamente. Do lado, um pequeno triciclo, com a roda plástica da frente perfurada por cacos de vidro. Tremeu. Ajoelhou-se ao lado do brinquedo, tocando de leve um fragmento do vidro, e ainda pôde identificar uma mancha escura que sabia ser sangue, a muitos anos seco.

Pelo chão, saindo de onde estava e formando uma trilha até o quarto ao lado, pequenas manchas enegrecidas. Sabia que não devia entrar mais. A partir dali a lua já não iluminaria a casa e não haveriam janelas. Entrou, a porta fechando-se atrás dele.

O quarto era iluminado fracamente por um outro brinquedo, de plástico semitransparente, colocado em uma tomada que parecia fora do lugar, pendurada na parede de madeira. Havia um beliche, um tapete circular rasgado e uma barraca de camping com as barras de metal retorcidas. Em cima do tapete, um boneco sem a cabeça. Aproximou-se.

Quando tomou o boneco nas mãos o quarto à sua volta desapareceu, ficando envolto por uma nuvem escura. Ouviu alguém gritando com ele, mas não podia distinguir as palavras. O boneco derreteu-se e escorreu por entre seus dedos. Então estava caindo, a cabeça apontada para o tapete rasgado. Tentou gritar, mas sua boca não se abriu. Ao invés disso, o rasgo no tapete pareceu crescer, engolindo-o quando atingiu o chão.

Quando abriu os olhos viu o teto branco. Sentiu um cheiro que o fez se sentir mal. Cheiro de morte. Olhou para o lado e viu um corpo. Seu corpo. Seus olhos estavam abertos e assustados, a cabeça coberta por sangue. Sentiu que ia vomitar, e tudo começou a rodar. Virou-se bruscamente para o outro lado, caindo da maca em que estava.

Mas o chão em que caiu não era mais o do hospital. Estava em um gramado e várias crianças gritavam para que saísse dali pois estava atrapalhando o jogo delas. Levantou-se, tonto. Um dos garotos, que parecia mais velho, o ameaçava. Correu.

Correu pelo campo até o sol desaparecer. Em seu lugar subiu a lua, e por um momento pensou que havia retornado. Mas não era a lua que conhecia. Era uma lua vermelha, ameaçadora, que parecia reprovar com todas as forças ele estar ali. Sentiu um arrepio percorrer sua coluna. O ar havia mudado.

Paredes se ergueram à sua volta, formando um corredor estreito sem teto iluminado apenas pela luz rubra que vinha de cima. Espelhos nas paredes refletiam infinitamente sua imagem. Então ouviu um barulho vindo de trás dele. Sentiu um frio mórbido abraçar sua alma, congelando-o por dentro. Juntando todas suas forças, olhou para trás.

Sabia o que iria encontrar. Apenas uma coisa era capaz de despertar aquele terror em seu ser. Sabia antes de olhar. Não queria ver, mas seus olhos se recusaram a se fechar. Estava ali, e sabia que estava sorrindo mesmo não tendo uma boca. A Cruz. Rachada, brilhando escalarte. Refletida infinitas vezes, infinitas vezes atrás de sua própria imagem.

Desesperou-se e disparou-se pelo corredor. A lua, a verdadeira lua, em algum lugar chorava por ele, e pelo céu que havia se tornado vermelho. Pelo mundo vermelho. Ele, tropeçando, sentia a presença se aproximar cada vez mais. Sentia mãos invisíveis tocarem seu ombro e baforadas gélidas se lançarem contra sua nuca. O fim do corredor se aproximava, com um último espelho fechando o caminho. Fechou os olhos e se jogou contra o vidro. Sentiu o vidro se estilhaçar, cortando sua pele. Em seguida caiu. Abriu os olhos a tempo de ver o chão se aproximando.

Se preparou para a próxima parte do pesadelo, mas ao invés disso sentiu seu corpo bater no chão. Sentiu a dor percorrer cada um de seus membros, insuportável. E então a dor desapareceu.

Olhava o fundo da chávena, as folhas espalhadas caoticamente na porcelana. A lua já havia se posto. O chá, acabado. Suspirou.

O chá havia acabado.

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